Estamos sentados na beira da estrada, sem rumo, entre muitas opções, pois não temos lembranças de nosso roteiro de viagem que ficou perdido, lá atrás, num tempo diferente do contado cronologicamente; tempo em que o tempo não existia como agora, e que a fantasia gerava tantos seres extraordinários quanto a nossa capacidade de imaginá-los e conviver com eles.
Perdemos nosso roteiro e com ele, na mesma sacola, ficou o doce encanto da fantasia que tornava nossa jornada mais bela, mais agradável, mais assertiva e, sobretudo não nos deixava perder a consciência do ser que éramos.
Distanciados da história de nossa origem, não sabemos quem somos e, claro, nem para onde vamos. Fingimos acreditar que estamos no caminho certo. No entanto, nossos mergulhos nas sensações, nas emoções de superfície, nas muitas roupagens exageradamente descompostas, mostram somente o quanto fomos enganados pelo orgulho, pela vaidade e pela presunção de acreditar saber mais do que de fato sabíamos.
Elevamos a mais alta hierarquia um conjunto de pressupostos mal examinados que nos tornavam capazes de realizar inventos grandes, mas de maus sortilégios que nos afastavam cada vez mais do nosso centro a que nos dirigíamos.
Fomos ficando atrás do ser que éramos.
Fomos perdendo a elegância de fazer grandes versos que nos tornavam o centro das atenções dos corações. Voltamos nossa face para o cérebro e com ele realizamos grandes obras que, no entanto, não servem para nos colocar de volta ao nosso caminho.
Encontramos o desespero, a dor, a desconfiança, o medo e a solidão muitas vezes disfarçados para nos enganar. Vezes sem conta caímos em suas pérfidas armadilhas, entregando-lhes os poucos recursos que nossa alma ainda possuía. Mas a vida seguindo seu curso, nos seus fluxos nos arrastou até que um dia, cansados, machucados, humilhados, nos vimos sem outra opção a não ser deixar o coração voar e com ele seguir por sobre os montes, montanhas e florestas, numa estrada, aparentemente sem fim.
Depositados ali, sentados, depauperados, nos demos conta de que havíamos nos afastado do roteiro porque havíamos negado nossa origem e negar a origem é perder a caminhada.
Nossa saída, é encontrar entre as várias opções, a serenidade para, da maneira mais delicada possível, desobrigar-nos dos compromissos com o fútil e obsoleto, voltarmos as costas para as tiranias do poder e do ter, e, finalmente, reconhecer, em meio a eloqüência da sinfonia do silêncio, a fantasia que brota dos lábios da criança, as canções dos amantes, as pedras do caminho, as flores da estrada, as dores sofridas e compensadas, que o mapa do caminho tão ardentemente procurado estava guardado nos mitos da infância.
Feito isso, nenhum encantamento nos livrará de retomar o caminho que nos conduzirá à Perfeição.
Dra. Débora Christina Ribas D'Ávila
Ed. Life Town Cambui, rua dos Alecrins, 914, sala 408 , fone (19)99478-6060, Campinas, São Paulo, Brazil
07/08/2011
03/08/2011
OLHA O OLHO DA MENINA http://ipanema.com/livros/olha/cover.htm
texto de Marisa Prado
ilustrado por ZIRALDO
Menina crescia escutando
que não adiantava mentir
porque mãe sempre sabia
Mãe dizia
que lia na testa da Menina,
e que só Mãe
sabia ler testa.
Menina tentava
tapar a testa com a mão
na hora de mentir.
Mãe achava graça. Muita graça.
E continuava lendo assim mesmo.
Menina precisava entender
como essa coisa misteriosa acontecia.
No espelho do banheiro,
mentia muito em silêncio.
E na testa, nada escrito!
Aí, Menina descobriu
que Mãe também mentia.
E que então não era testa
- era o olho, com um brilho diferente -
que entregava a mentira.
Menina então tentava
fechar o olho com força,
para esconder a Mentira.
Mas nem isso resolvia,
pois Mãe sempre adivinhava.
Menina tinha era que aprender
a fingir de olho aberto
que mentira era verdade.
Menina tentou, tentou...
e aprendeu.
Era essa a solução.
Mas de noite
Menina ficava apertada por dentro.
Assim meio sufocada,
não podia nem piscar.
Com o olho muito aberto,
não conseguia dormir.
Faltava ar pra Menina.
Igual quando a gente fica
quase sem respirar
rindo de uma cosquinha.
Só que não tinha graça.
Menina - sem querer -
tinha descoberto a Consciência,
uma coisa que toma conta da gente
mesmo quando Mãe
não está lendo testa,
nem adivinhando olho.
Menina tinha aprendido
que ter que fingir doía.
E que desse jeito
ia ficar muito sem graça
ser gente grande.
Menina desistiu de crescer.
Mas não adiantava.
Menina via que agora
já estava quase da altura
do móvel da sala da vovó.
E ficava muito triste,
o aperto apertando mais.
E de tanto que o aperto apertava,
Menina achou que fingir
só podia doer tanto
porque era dor sozinha.
Menina teve uma idéia,
e ainda não sabia
se era idéia brilhante.
Mas sabia - isso sim -
que precisava testar,
pra conseguir descobrir
A idéia da Menina
foi dizer para Mãe
que era difícil fingir.
Menina achava ruim
aprender montes de coisas
sem dividir com ninguém.
Menina falou pra Mãe
que era muito complicado
e que não era nada bom
ter que crescer sozinha.
Mãe abraçou
muito apertado a Menina.
E no colo tão esperado
Menina estava sendo mãe da Mãe.
Menina sentiu
que Mãe estava chorando.
E que Mãe
ainda não tinha aprendido tudo.
Mãe não falava nada
Mas uma e outra sabiam
naquele abraço apertado
que em Mãe também doía
ser gente grande sozinha.
Nessa hora
Menina entendeu tudinho.
Descobriu que só carinho
é que espanta a solidão.
E que dor, se dividida,
fica dor menos doída.
E que aí,
dá até vontade
de continuar a crescer
pra descobrir
o resto das coisas.
ilustrado por ZIRALDO
Menina crescia escutando
que não adiantava mentir
porque mãe sempre sabia
Mãe dizia
que lia na testa da Menina,
e que só Mãe
sabia ler testa.
Menina tentava
tapar a testa com a mão
na hora de mentir.
Mãe achava graça. Muita graça.
E continuava lendo assim mesmo.
Menina precisava entender
como essa coisa misteriosa acontecia.
No espelho do banheiro,
mentia muito em silêncio.
E na testa, nada escrito!
Aí, Menina descobriu
que Mãe também mentia.
E que então não era testa
- era o olho, com um brilho diferente -
que entregava a mentira.
Menina então tentava
fechar o olho com força,
para esconder a Mentira.
Mas nem isso resolvia,
pois Mãe sempre adivinhava.
Menina tinha era que aprender
a fingir de olho aberto
que mentira era verdade.
Menina tentou, tentou...
e aprendeu.
Era essa a solução.
Mas de noite
Menina ficava apertada por dentro.
Assim meio sufocada,
não podia nem piscar.
Com o olho muito aberto,
não conseguia dormir.
Faltava ar pra Menina.
Igual quando a gente fica
quase sem respirar
rindo de uma cosquinha.
Só que não tinha graça.
Menina - sem querer -
tinha descoberto a Consciência,
uma coisa que toma conta da gente
mesmo quando Mãe
não está lendo testa,
nem adivinhando olho.
Menina tinha aprendido
que ter que fingir doía.
E que desse jeito
ia ficar muito sem graça
ser gente grande.
Menina desistiu de crescer.
Mas não adiantava.
Menina via que agora
já estava quase da altura
do móvel da sala da vovó.
E ficava muito triste,
o aperto apertando mais.
E de tanto que o aperto apertava,
Menina achou que fingir
só podia doer tanto
porque era dor sozinha.
Menina teve uma idéia,
e ainda não sabia
se era idéia brilhante.
Mas sabia - isso sim -
que precisava testar,
pra conseguir descobrir
A idéia da Menina
foi dizer para Mãe
que era difícil fingir.
Menina achava ruim
aprender montes de coisas
sem dividir com ninguém.
Menina falou pra Mãe
que era muito complicado
e que não era nada bom
ter que crescer sozinha.
Mãe abraçou
muito apertado a Menina.
E no colo tão esperado
Menina estava sendo mãe da Mãe.
Menina sentiu
que Mãe estava chorando.
E que Mãe
ainda não tinha aprendido tudo.
Mãe não falava nada
Mas uma e outra sabiam
naquele abraço apertado
que em Mãe também doía
ser gente grande sozinha.
Nessa hora
Menina entendeu tudinho.
Descobriu que só carinho
é que espanta a solidão.
E que dor, se dividida,
fica dor menos doída.
E que aí,
dá até vontade
de continuar a crescer
pra descobrir
o resto das coisas.
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olha o olho da menina
02/08/2011
A GENÉTICA DA RAIVA
Cientistas investigam a influência dos genes no modo como cada um manifesta o sentimento e apontam de que forma o seu controle ajuda as pessoas a ter uma vida mais saudável
ISTOÉ - Rachel Costa
O aborrecimento de ficar preso no trânsito ou ter o voo cancelado são justificativas comuns de quem perde a cabeça e tem ataques de raiva. A origem do mal, porém, pode estar além desses eventos corriqueiros. Para uma nova linha de estudos, a raiz da raiva está nos genes: alterações genéticas afetariam circuitos hormonais do organismo, fazendo alguns responderem de forma mais violenta do que outros aos problemas do dia a dia. Dessa maneira, a dificuldade em controlar o sentimento não deveria ser interpretada como resultado de uma personalidade moldada apenas por fatores ambientais e psicológicos.
O peso da genética na forma como cada um processa a raiva vem sendo objeto de pesquisa e está discutido, por exemplo, em um trabalho da Universidade de Pittsburgh (EUA). Após a observação de 550 mulheres, provou-se que alterações em um gene relacionado ao funcionamento dos receptores de serotonina afetavam o modo como as voluntárias expressam a emoção. Esses receptores são “fechaduras” presentes na membrana dos neurônios. Eles permitem a entrada, nas células, da serotonina, substância envolvida no processamento das emoções. “Problemas na sua produção ou absorção estão associados a emoções negativas, como a raiva e a depressão, além de comportamento agressivo e impulsivo”, diz o neurologista Alexandre Ghelman, especialista em gestão do estresse e da raiva, do Rio de Janeiro.
A informação poderá servir para a criação de um teste para apontar indivíduos mais predispostos ao sentimento. Identificá-los é uma preocupação pertinente. É consenso que a raiva está associada a diversas doenças, entre elas as cardíacas. Uma revisão de 43 estudos realizada pela University College de Londres, por exemplo, mostrou que quem é mais explosivo possui entre 19% e 24% mais chances de ter doença coronariana. O dado preocupa ainda mais quando cruzado com outro, do Serviço de Saúde Pública dos EUA: 60% dos 1,8 mil entrevistados admitiram ter sentido raiva pelo menos uma vez na semana anterior à enquete. “A raiva é um sentimento popular e incentivado na sociedade moderna”, diz a psicóloga Ana Maria Rossi, presidente da International Stress Management Association no Brasil. Porém, a especialista alerta que não se pode banalizar os comportamentos de raiva excessiva. “É preciso identificá-los e tratá-los.”
AÇÃO
Nem tudo, entretanto, é negativo quando o assunto é raiva. Quando bem controlada, essa emoção é instrumento de autopreservação. “Ela gera força e energia, que podem ser usadas como combustível para se defender de uma injustiça ou de um abuso”, diz a psicóloga Marilda Novaes Lipp, da PUC-Campinas, especialista no tratamento da raiva. O importante é não exacerbar o sentimento nem retê-lo. “Sofrer em silêncio também causa alterações psicofisiológicas”, alerta o médico Renato Alarcon, da Clínica Mayo (EUA).
Manter o controle é útil, inclusive, para ajudar na recuperação de pacientes, de acordo com estudo da Universidade de Ohio (EUA). Entre os 98 voluntários, quem sabia regular melhor a emoção apresentava menores índices de cortisol, hormônio liberado em situações de estresse. Quanto menor sua quantidade, mais rápida a recuperação. “Isso mostra que terapias de controle da raiva podem ajudar o paciente a se recuperar”, disse à ISTOÉ Jean-Philip-pe Gouin, líder do estudo.
Sem contar que mais controle sobre a raiva permite uma vida mais tranquila. Foi o que aprendeu a empresária Maria da Silva, 54 anos. Quando ela estourava, sobrava para marido, funcionários e para o próprio corpo – ela, que é hipertensa, sofria com subidas repentinas da pressão arterial. “Depois que aprendi a controlar a raiva, vi que tinha de ponderar o que falava.” Está aí o segredo: o melhor, antes de tomar uma atitude impulsiva, é inspirar, expirar e avaliar se é mesmo necessário se incomodar com o que aconteceu.
ISTOÉ - Rachel Costa
O aborrecimento de ficar preso no trânsito ou ter o voo cancelado são justificativas comuns de quem perde a cabeça e tem ataques de raiva. A origem do mal, porém, pode estar além desses eventos corriqueiros. Para uma nova linha de estudos, a raiz da raiva está nos genes: alterações genéticas afetariam circuitos hormonais do organismo, fazendo alguns responderem de forma mais violenta do que outros aos problemas do dia a dia. Dessa maneira, a dificuldade em controlar o sentimento não deveria ser interpretada como resultado de uma personalidade moldada apenas por fatores ambientais e psicológicos.
O peso da genética na forma como cada um processa a raiva vem sendo objeto de pesquisa e está discutido, por exemplo, em um trabalho da Universidade de Pittsburgh (EUA). Após a observação de 550 mulheres, provou-se que alterações em um gene relacionado ao funcionamento dos receptores de serotonina afetavam o modo como as voluntárias expressam a emoção. Esses receptores são “fechaduras” presentes na membrana dos neurônios. Eles permitem a entrada, nas células, da serotonina, substância envolvida no processamento das emoções. “Problemas na sua produção ou absorção estão associados a emoções negativas, como a raiva e a depressão, além de comportamento agressivo e impulsivo”, diz o neurologista Alexandre Ghelman, especialista em gestão do estresse e da raiva, do Rio de Janeiro.
A informação poderá servir para a criação de um teste para apontar indivíduos mais predispostos ao sentimento. Identificá-los é uma preocupação pertinente. É consenso que a raiva está associada a diversas doenças, entre elas as cardíacas. Uma revisão de 43 estudos realizada pela University College de Londres, por exemplo, mostrou que quem é mais explosivo possui entre 19% e 24% mais chances de ter doença coronariana. O dado preocupa ainda mais quando cruzado com outro, do Serviço de Saúde Pública dos EUA: 60% dos 1,8 mil entrevistados admitiram ter sentido raiva pelo menos uma vez na semana anterior à enquete. “A raiva é um sentimento popular e incentivado na sociedade moderna”, diz a psicóloga Ana Maria Rossi, presidente da International Stress Management Association no Brasil. Porém, a especialista alerta que não se pode banalizar os comportamentos de raiva excessiva. “É preciso identificá-los e tratá-los.”
AÇÃO
Nem tudo, entretanto, é negativo quando o assunto é raiva. Quando bem controlada, essa emoção é instrumento de autopreservação. “Ela gera força e energia, que podem ser usadas como combustível para se defender de uma injustiça ou de um abuso”, diz a psicóloga Marilda Novaes Lipp, da PUC-Campinas, especialista no tratamento da raiva. O importante é não exacerbar o sentimento nem retê-lo. “Sofrer em silêncio também causa alterações psicofisiológicas”, alerta o médico Renato Alarcon, da Clínica Mayo (EUA).
Manter o controle é útil, inclusive, para ajudar na recuperação de pacientes, de acordo com estudo da Universidade de Ohio (EUA). Entre os 98 voluntários, quem sabia regular melhor a emoção apresentava menores índices de cortisol, hormônio liberado em situações de estresse. Quanto menor sua quantidade, mais rápida a recuperação. “Isso mostra que terapias de controle da raiva podem ajudar o paciente a se recuperar”, disse à ISTOÉ Jean-Philip-pe Gouin, líder do estudo.
Sem contar que mais controle sobre a raiva permite uma vida mais tranquila. Foi o que aprendeu a empresária Maria da Silva, 54 anos. Quando ela estourava, sobrava para marido, funcionários e para o próprio corpo – ela, que é hipertensa, sofria com subidas repentinas da pressão arterial. “Depois que aprendi a controlar a raiva, vi que tinha de ponderar o que falava.” Está aí o segredo: o melhor, antes de tomar uma atitude impulsiva, é inspirar, expirar e avaliar se é mesmo necessário se incomodar com o que aconteceu.
Semana da Amamentação - Sociedade Brasileira de Pediatria
A SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA: AÇÕES E CONQUISTAS EM
ALEITAMENTO MATERNO
Departamento Científico de Aleitamento Materno*
* Elsa Regina Justo Giugliani (presidente) – RS; Roberto Diniz Vinagre (Vicepresidente)
– MT; Lucia Marina Abrantes Gueiros Samu (secretária) – ES; Carmen
silvia Martimbianco de Figueiredo – MS; Dione Alencar Simons – AL; Dolores
Fernandez Fernandez (BA); Feliciana Santos Pinheiro – MA; Hamilton Henrique
Robledo – SP; Hugo Issler – SP; José Dias Rego – RJ; Keyko Miyasaki Teruya –
SP; Sonia Maria Salviano Matos de Alencar - DF
Apesar de a espécie humana, por ter evoluído e se mantido 99,9% da sua
existência na terra amamentando os seus descendentes, estar geneticamente
programada para receber os benefícios do leite materno e do ato de amamentar, o
aleitamento materno deixou de ser um ato universal por influências socioculturais.
No século XX, em várias partes do mundo, incluindo o Brasil, houve um dramático
declínio das taxas de aleitamento materno até as décadas de 60 e 70, com tristes
implicações - desnutrição e alta mortalidade infantil em áreas menos
desenvolvidas. As conseqüências a longo prazo são ainda desconhecidas, pois
transformações genéticas não ocorrem com a rapidez de mudanças culturais.
Na década de 70, deu-se início ao movimento global de resgate à “cultura da
amamentação”, em resposta às denúncias contra o uso disseminado de leites
artificiais e ao surgimento de inúmeros trabalhos científicos mostrando a
superioridade do leite materno como fonte de alimento, de proteção contra
doenças e de afeto. As taxas de aleitamento materno no Brasil aumentaram
consideravelmente nas décadas de 80 e 90, em resposta a diversas ações de
promoção do aleitamento materno em todo o País. A mediana da duração do
aleitamento materno, que era de apenas 2,5 meses em 1975, passou a ser de 5,5
meses em 1989 e de 7 meses em 1996. A última pesquisa em nível nacional
realizada nas capitais brasileiras indicou uma mediana de duração de aleitamento
materno de 10 meses.
A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), através do Departamento Científico de
Aleitamento Materno, ex-Comitê de Aleitamento Materno, sempre esteve engajada
no movimento de resgate do aleitamento natural. Já no final dos anos 60, portanto
mais de uma década antes da implementação do Programa Nacional de Incentivo
ao Aleitamento Materno (PNIAM), em 1981, a SBP reuniu um pequeno grupo de
pediatras preocupados com as práticas alimentares das crianças pequenas da
época. Como resultado, foram publicadas as primeiras recomendações sobre
amamentação no Jornal de Pediatria.
A SBP e o aleitamento materno: retrospectiva
O Departamento Científico de Aleitamento Materno da SBP foi criado em 1980,
portanto nos primórdios do movimento de resgate à amamentação, com o nome
de Grupo de Incentivo ao Aleitamento Materno. Oficialmente o grupo era
composto por apenas 2 membros: o coordenador nacional (Dr. José Martins Filho)
e o coordenador para o Rio de Janeiro (Dr. José Dias Rego). Em 1982, o Grupo
de Incentivo ao Aleitamento Materno passa a se chamar Comitê de Aleitamento
Materno, sob a coordenação nacional do Dr. José Dias Rego. Em 1984, esse
Comitê, agora Comitê Científico de Aleitamento Materno, é ampliado, fazendo
parte dele 34 membros representando 18 estados, ainda sob a mesma
coordenação.
Na gestão 1986-1988 o Comitê Científico de Aleitamento Materno foi extinto, para
ser reativado em 1988 com 15 membros e sob a coordenação do incansável Dr.
Dias Rego. Em 1992, o número de membros do Comitê é reduzido a 12, agora
sob a coordenação da Dra. Vilneide Braga, de Pernambuco. O Dr. Joel Alves
Lamounier, de Minas Gerais, assume a presidência do Comitê de 1994 a 1998. É
nesse período que o Comitê Científico de Aleitamento Materno passa a se chamar
Departamento Científico de Aleitamento Materno. Junto com a mudança do nome
houve uma reformulação do regulamento de todos os Departamentos da SBP, que
passaram a ter as seguintes finalidades: promover estudos; normatizar; promover
reuniões, encontros, cursos; e assessorar a diretoria da SBP em assuntos da
abrangência dos Departamentos. Houve uma mudança na constituição dos
Departamentos, que passaram a ter um Núcleo Gerencial (presidente, vicepresidente
e secretário), um Conselho Científico formado por no máximo 11
membros e um Grupo de Membros Participantes, composto por um número
ilimitado de sócios da SBP. Os membros do Núcleo Gerencial e do Conselho
Científico não podem permanecer no Departamento por mais que duas gestões
sucessivas. Sendo assim, o Dr. Joel Lamonier, em 1988, foi substituído na
presidência do Departamento de Aleitamento Materno pela Dra. Sonia Maria
Salviano Matos de Alencar, do Distrito Federal, que permaneceu no cargo até
março de 2001. Desde então, a presidência vem sendo desempenhada pela Dra.
Elsa Regina Justo Giugliani, do Rio Grande do Sul.
Ações e conquistas
A SBP há mais de 3 décadas vêm se engajando no movimento pró-amamentação
no Brasil, sendo um dos pioneiros. Seria impossível relatar todas as ações e
conquistas na área de aleitamento materno, em parte pelo grande número de
ações e em parte por dificuldade em localizar os registros de todas as atividades.
Ao trabalho do Departamento Científico da SBP somam-se os trabalhos das
filiadas regionais. A seguir serão listadas algumas ações e conquistas do
Departamento Científico de Aleitamento Materno ao longo do tempo:
Apoio da SBP e participação ativa dos membros do Departamento Científico
de Aleitamento Materno em diversos eventos: encontros, cursos,
seminários, congressos, etc.;
1982-1984 – intensa mobilização de profissionais em todo o País, através das
filiadas nos estados;
1984-1985 - participação no Grupo Técnico Executivo de Incentivo ao Aleitamento
Materno do Instituto Nacional de Alimentação e Nutrição, opinando nas
campanhas de incentivo ao aleitamento materno, na elaboração das normas de
alimentos para o desmame e da Norma Brasileira para Comercialização de
Alimentos para Lactentes, nas recomendações técnicas para o funcionamento dos
Bancos de Leite Humano, entre outros;,br>
1985– “Prêmio Zezinho Amigo do Peito” – em homenagem aos Drs. José Martins
Filho e José Dias Rego - para o melhor trabalho científico sobre aleitamento
materno apresentado no XXIV Congresso Brasileiro de Pediatria, em Fortaleza;
1986-1987– Campanha “Aleitamento Materno, Parto Normal: atos de amor” ,
motivada pelo fato de o Brasil ser campeão mundial de cesarianas;
1988 – “Prêmio Criança e Paz” conferido pelo UNICEF à SBP pelo destaque na
luta em defesa dos direitos da criança e do adolescente;
1992-1994 – Apoio à campanha Hospitais Amigo da Criança;
1998-2001
1-Atuação importante na “Semana Mundial da Amamentação”, atualmente
celebrada entre 1 e 7 de outubro. Todos os anos a SBP convida uma mulher de
expressão que esteja amamentando para ser a madrinha do Departamento
Científico de Aleitamento Materno. Em 1999 a escolhida foi Luiza Brunet, em 2000
Glória Pires e em 2001 Isabel Filardis. As madrinhas pousam amamentando para
a confecção folders e de cartazes que são distribuídos em todo o Brasil através
das filiadas;
2-Integração entre SBP e a Área de Saúde da Criança da Secretaria de Políticas
de Saúde do Ministério da Saúde nas seguintes ações, entre outras: Iniciativa
Hospital Amigo da Criança, Norma Brasileira de Comercialização de Alimentos
para Lactentes, Método Mãe Canguru, Semana Mundial da Amamentação, Projeto
Carteiro Amigo e Projeto de Expansão da Rede de Bancos de Leite Humano;
3-Representação na Comissão Nacional de Bancos de Leite Humano do Ministério
da Saúde;
4-1999 - Concurso de Monografias sobre Aleitamento Materno entre os médicos
em processo de especialização em pediatria;
5-1999 - Concurso de Fotografia de Mulheres Amamentando para pediatras,
sócios da SBP;
6-1998 – Diploma entregue ao presidente da SBP pelo Ministério da Saúde como
reconhecimento aos esforços empreendidos pela SPB em prol da saúde das
crianças, e em especial em prol da amamentação;
7-2000 - Homenagem do representante do Ministério da Saúde ao presidente da
SBP, Dr. Lincoln Freire, na abertura I Congresso Internacional de Bancos de Leite
Humano, em Natal, pelos trabalhos desenvolvidos pela SBP na área de
aleitamento materno.
Em outubro de 2001, os membros do Departamento Científico de Aleitamento
Materno se reuniram no Rio de Janeiro para, entre outras coisas, elaborar um
plano de ação para a gestão 2001-2004. As metas para 2002 são:
1)Criação do Curso Itinerante de Atualização em Aleitamento Materno para
Pediatras, que deverá ser oferecido em todos os estados, através das filiadas da
SBP;
2)Resgate do Projeto Título de Especialista em Aleitamento Materno;
3)Elaboração de vídeo sobre aleitamento materno para sala de espera de clínicas
e consultórios, que poderá ser adquirido pelos pediatras sócios da SBP;
4)Elaboração de Folder sobre aleitamento materno dirigido às mães, que poderão
ser adquiridos pelos pediatras sócios da SBP e distribuídos entre a sua clientela;
5)Canal de comunicação direta com os pediatras e o público em geral através do
site da SBP.
A SBP tem uma tarefa social da mais alta relevância: a de promover a saúde da
criança brasileira. E neste contexto assume lugar de destaque a promoção, a
proteção e o apoio à amamentação. Muitas ações pró-amamentação e conquistas
vêm sendo vivenciadas ao longo dos últimos 30 anos. Há muito o que fazer ainda.
Precisamos envolver o maior número de pediatras neste movimento crescente de
conscientização da importância do aleitamento materno exclusivo nos primeiros 6
meses de vida e complementado até os 2 anos ou mais. Precisamos continuar
trabalhando em prol da universalização da prática do aleitamento materno.
Referências Bibliográficas:
Alencar SMSM, Dias Rego J. As Sociedades Médicas e o incentivo ao aleitamento
materno. In: Dias Rego J, ed. Aleitamento Materno. São Paulo: Atheneu; 2001.
P.409-20.
Carneiro G. Um compromisso com a esperança: História da Sociedade Brasileira
de Pediatria – 1910-2000.Rio de Janeiro: Expressão e Cultura; 2000.
ALEITAMENTO MATERNO
Departamento Científico de Aleitamento Materno*
* Elsa Regina Justo Giugliani (presidente) – RS; Roberto Diniz Vinagre (Vicepresidente)
– MT; Lucia Marina Abrantes Gueiros Samu (secretária) – ES; Carmen
silvia Martimbianco de Figueiredo – MS; Dione Alencar Simons – AL; Dolores
Fernandez Fernandez (BA); Feliciana Santos Pinheiro – MA; Hamilton Henrique
Robledo – SP; Hugo Issler – SP; José Dias Rego – RJ; Keyko Miyasaki Teruya –
SP; Sonia Maria Salviano Matos de Alencar - DF
Apesar de a espécie humana, por ter evoluído e se mantido 99,9% da sua
existência na terra amamentando os seus descendentes, estar geneticamente
programada para receber os benefícios do leite materno e do ato de amamentar, o
aleitamento materno deixou de ser um ato universal por influências socioculturais.
No século XX, em várias partes do mundo, incluindo o Brasil, houve um dramático
declínio das taxas de aleitamento materno até as décadas de 60 e 70, com tristes
implicações - desnutrição e alta mortalidade infantil em áreas menos
desenvolvidas. As conseqüências a longo prazo são ainda desconhecidas, pois
transformações genéticas não ocorrem com a rapidez de mudanças culturais.
Na década de 70, deu-se início ao movimento global de resgate à “cultura da
amamentação”, em resposta às denúncias contra o uso disseminado de leites
artificiais e ao surgimento de inúmeros trabalhos científicos mostrando a
superioridade do leite materno como fonte de alimento, de proteção contra
doenças e de afeto. As taxas de aleitamento materno no Brasil aumentaram
consideravelmente nas décadas de 80 e 90, em resposta a diversas ações de
promoção do aleitamento materno em todo o País. A mediana da duração do
aleitamento materno, que era de apenas 2,5 meses em 1975, passou a ser de 5,5
meses em 1989 e de 7 meses em 1996. A última pesquisa em nível nacional
realizada nas capitais brasileiras indicou uma mediana de duração de aleitamento
materno de 10 meses.
A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), através do Departamento Científico de
Aleitamento Materno, ex-Comitê de Aleitamento Materno, sempre esteve engajada
no movimento de resgate do aleitamento natural. Já no final dos anos 60, portanto
mais de uma década antes da implementação do Programa Nacional de Incentivo
ao Aleitamento Materno (PNIAM), em 1981, a SBP reuniu um pequeno grupo de
pediatras preocupados com as práticas alimentares das crianças pequenas da
época. Como resultado, foram publicadas as primeiras recomendações sobre
amamentação no Jornal de Pediatria.
A SBP e o aleitamento materno: retrospectiva
O Departamento Científico de Aleitamento Materno da SBP foi criado em 1980,
portanto nos primórdios do movimento de resgate à amamentação, com o nome
de Grupo de Incentivo ao Aleitamento Materno. Oficialmente o grupo era
composto por apenas 2 membros: o coordenador nacional (Dr. José Martins Filho)
e o coordenador para o Rio de Janeiro (Dr. José Dias Rego). Em 1982, o Grupo
de Incentivo ao Aleitamento Materno passa a se chamar Comitê de Aleitamento
Materno, sob a coordenação nacional do Dr. José Dias Rego. Em 1984, esse
Comitê, agora Comitê Científico de Aleitamento Materno, é ampliado, fazendo
parte dele 34 membros representando 18 estados, ainda sob a mesma
coordenação.
Na gestão 1986-1988 o Comitê Científico de Aleitamento Materno foi extinto, para
ser reativado em 1988 com 15 membros e sob a coordenação do incansável Dr.
Dias Rego. Em 1992, o número de membros do Comitê é reduzido a 12, agora
sob a coordenação da Dra. Vilneide Braga, de Pernambuco. O Dr. Joel Alves
Lamounier, de Minas Gerais, assume a presidência do Comitê de 1994 a 1998. É
nesse período que o Comitê Científico de Aleitamento Materno passa a se chamar
Departamento Científico de Aleitamento Materno. Junto com a mudança do nome
houve uma reformulação do regulamento de todos os Departamentos da SBP, que
passaram a ter as seguintes finalidades: promover estudos; normatizar; promover
reuniões, encontros, cursos; e assessorar a diretoria da SBP em assuntos da
abrangência dos Departamentos. Houve uma mudança na constituição dos
Departamentos, que passaram a ter um Núcleo Gerencial (presidente, vicepresidente
e secretário), um Conselho Científico formado por no máximo 11
membros e um Grupo de Membros Participantes, composto por um número
ilimitado de sócios da SBP. Os membros do Núcleo Gerencial e do Conselho
Científico não podem permanecer no Departamento por mais que duas gestões
sucessivas. Sendo assim, o Dr. Joel Lamonier, em 1988, foi substituído na
presidência do Departamento de Aleitamento Materno pela Dra. Sonia Maria
Salviano Matos de Alencar, do Distrito Federal, que permaneceu no cargo até
março de 2001. Desde então, a presidência vem sendo desempenhada pela Dra.
Elsa Regina Justo Giugliani, do Rio Grande do Sul.
Ações e conquistas
A SBP há mais de 3 décadas vêm se engajando no movimento pró-amamentação
no Brasil, sendo um dos pioneiros. Seria impossível relatar todas as ações e
conquistas na área de aleitamento materno, em parte pelo grande número de
ações e em parte por dificuldade em localizar os registros de todas as atividades.
Ao trabalho do Departamento Científico da SBP somam-se os trabalhos das
filiadas regionais. A seguir serão listadas algumas ações e conquistas do
Departamento Científico de Aleitamento Materno ao longo do tempo:
Apoio da SBP e participação ativa dos membros do Departamento Científico
de Aleitamento Materno em diversos eventos: encontros, cursos,
seminários, congressos, etc.;
1982-1984 – intensa mobilização de profissionais em todo o País, através das
filiadas nos estados;
1984-1985 - participação no Grupo Técnico Executivo de Incentivo ao Aleitamento
Materno do Instituto Nacional de Alimentação e Nutrição, opinando nas
campanhas de incentivo ao aleitamento materno, na elaboração das normas de
alimentos para o desmame e da Norma Brasileira para Comercialização de
Alimentos para Lactentes, nas recomendações técnicas para o funcionamento dos
Bancos de Leite Humano, entre outros;,br>
1985– “Prêmio Zezinho Amigo do Peito” – em homenagem aos Drs. José Martins
Filho e José Dias Rego - para o melhor trabalho científico sobre aleitamento
materno apresentado no XXIV Congresso Brasileiro de Pediatria, em Fortaleza;
1986-1987– Campanha “Aleitamento Materno, Parto Normal: atos de amor” ,
motivada pelo fato de o Brasil ser campeão mundial de cesarianas;
1988 – “Prêmio Criança e Paz” conferido pelo UNICEF à SBP pelo destaque na
luta em defesa dos direitos da criança e do adolescente;
1992-1994 – Apoio à campanha Hospitais Amigo da Criança;
1998-2001
1-Atuação importante na “Semana Mundial da Amamentação”, atualmente
celebrada entre 1 e 7 de outubro. Todos os anos a SBP convida uma mulher de
expressão que esteja amamentando para ser a madrinha do Departamento
Científico de Aleitamento Materno. Em 1999 a escolhida foi Luiza Brunet, em 2000
Glória Pires e em 2001 Isabel Filardis. As madrinhas pousam amamentando para
a confecção folders e de cartazes que são distribuídos em todo o Brasil através
das filiadas;
2-Integração entre SBP e a Área de Saúde da Criança da Secretaria de Políticas
de Saúde do Ministério da Saúde nas seguintes ações, entre outras: Iniciativa
Hospital Amigo da Criança, Norma Brasileira de Comercialização de Alimentos
para Lactentes, Método Mãe Canguru, Semana Mundial da Amamentação, Projeto
Carteiro Amigo e Projeto de Expansão da Rede de Bancos de Leite Humano;
3-Representação na Comissão Nacional de Bancos de Leite Humano do Ministério
da Saúde;
4-1999 - Concurso de Monografias sobre Aleitamento Materno entre os médicos
em processo de especialização em pediatria;
5-1999 - Concurso de Fotografia de Mulheres Amamentando para pediatras,
sócios da SBP;
6-1998 – Diploma entregue ao presidente da SBP pelo Ministério da Saúde como
reconhecimento aos esforços empreendidos pela SPB em prol da saúde das
crianças, e em especial em prol da amamentação;
7-2000 - Homenagem do representante do Ministério da Saúde ao presidente da
SBP, Dr. Lincoln Freire, na abertura I Congresso Internacional de Bancos de Leite
Humano, em Natal, pelos trabalhos desenvolvidos pela SBP na área de
aleitamento materno.
Em outubro de 2001, os membros do Departamento Científico de Aleitamento
Materno se reuniram no Rio de Janeiro para, entre outras coisas, elaborar um
plano de ação para a gestão 2001-2004. As metas para 2002 são:
1)Criação do Curso Itinerante de Atualização em Aleitamento Materno para
Pediatras, que deverá ser oferecido em todos os estados, através das filiadas da
SBP;
2)Resgate do Projeto Título de Especialista em Aleitamento Materno;
3)Elaboração de vídeo sobre aleitamento materno para sala de espera de clínicas
e consultórios, que poderá ser adquirido pelos pediatras sócios da SBP;
4)Elaboração de Folder sobre aleitamento materno dirigido às mães, que poderão
ser adquiridos pelos pediatras sócios da SBP e distribuídos entre a sua clientela;
5)Canal de comunicação direta com os pediatras e o público em geral através do
site da SBP.
A SBP tem uma tarefa social da mais alta relevância: a de promover a saúde da
criança brasileira. E neste contexto assume lugar de destaque a promoção, a
proteção e o apoio à amamentação. Muitas ações pró-amamentação e conquistas
vêm sendo vivenciadas ao longo dos últimos 30 anos. Há muito o que fazer ainda.
Precisamos envolver o maior número de pediatras neste movimento crescente de
conscientização da importância do aleitamento materno exclusivo nos primeiros 6
meses de vida e complementado até os 2 anos ou mais. Precisamos continuar
trabalhando em prol da universalização da prática do aleitamento materno.
Referências Bibliográficas:
Alencar SMSM, Dias Rego J. As Sociedades Médicas e o incentivo ao aleitamento
materno. In: Dias Rego J, ed. Aleitamento Materno. São Paulo: Atheneu; 2001.
P.409-20.
Carneiro G. Um compromisso com a esperança: História da Sociedade Brasileira
de Pediatria – 1910-2000.Rio de Janeiro: Expressão e Cultura; 2000.
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31/07/2011
A MÃE PERFEITA É UM MITO
A MÃE PERFEITA É UM MITO
Revista Veja – Entrevista com Elisabeth Badinter – Edição 2226
Poucos intelectuais falam sobre os DILEMAS DA MATERNIDADE com a CORAGEM da filósofa francesa Elisabeth Badinter, 67 anos. Professora da École Polytechnique, autora de uma dezena de livros, ela sempre causou polêmicas que extrapolaram a academia. Em 1980, lançou um livro em que questionava a noção de instinto materno. A mais recente controvérsia gira em torno de seu novo trabalho, Le Conflit: la Femme et la Mère (O Conflito: a Mulher e a Mãe), best-seller na França, recém-lançado no Brasil. Badinter ataca um grupo de feministas que ajuda a consolidar no pensamento moderno a ideia de que toda mulher deve ser mãe – e perfeita. Herdeira do grupo de publicidade Publicis e mãe de três filhos, ela concedeu a entrevista de Paris, onde mora com o marido, Robert Badinter, ex-ministro da Justiça da era Mitterrand.
Como a senhora conseguiu despertar a ira de feministas, ecologistas e acadêmicos?
Tento desconstruir um mito que vem se consolidando nas sociedades modernas com a participação de todos esses grupos: o da mãe perfeita. Movidos por ideologias as mais variadas, feministas, ecologistas e os intelectuais que eu combato tratam de sedimentar no caldo cultural do século XXI a ideia de que, uma vez mãe, a mulher deve se enquadrar em um modelo único, obedecendo a dogmas que, de tão atrasados, sepultam os avanços mais básicos trazidos pela industrialização. Estou falando de pessoas que torcem o nariz para as cesarianas e chegam a fazer apologia do parto sem anestesia, sob o argumento de que há beleza no sacrifício feito em nome dos filhos já no primeiro ato. Demonizam o uso da mamadeira e até o da fralda descartável. Para essa gente, as mães nunca devem estar indispostas para suprir as necessidades de sua prole. Essa pressão só causa frustração e culpa nas mulheres.
A senhora está dizendo que as próprias feministas agitam hoje bandeiras que trazem frustração e culpa às mulheres?
Uma parte delas, não há dúvida, está dando marcha à ré em relação a conquistas anteriores. Pois elas estão, no fim das contas, retirando o direito de escolha das mulheres. Olhe um exemplo bem claro do que digo. Em 2009, a então ministra da Justiça francesa, Rachida Dati, voltou à ativa poucos dias depois de dar à luz. Foi o suficiente para que algumas feministas ficassem possessas. “O que essa ministra está fazendo que não ficou em casa amamentando seu bebê?”, elas indagavam. Diziam que os empregadores poderiam agarrar-se àquele caso para se insurgir contra a licença-maternidade e outros direitos adquiridos pelas mulheres que são mães. Em suma, politizaram a discussão sem se preocupar com aquilo que, afinal, é o fundamental: que, entre parâmetros razoáveis, elas possam exercer a maternidade à sua maneira, de acordo com seus valores e convicções. Pois digo mais sobre essas feministas: elas estão contribuindo para que as mulheres voltem para o lar!
Mas não é uma bandeira oposta à que sempre defenderam?
Não é que elas trocaram de bandeira, só que sua mensagem vai em direção contrária ao que apregoam. Essas feministas dizem que as mulheres apresentam certas características, como ternura e compaixão, que as distinguem dos homens de forma decisiva. Para elas, ser mãe seria como uma extensão natural da própria natureza feminina e, por isso, todas deveriam exercer seu lado maternal. É como um ato, uma demarcação de território. Certamente a maioria das mães de hoje não se reconhece nesse discurso, mas ele acaba se juntando ao de outras tantas cabeças pensantes equivocadas que tratam de idealizar a maternidade. Diante de tamanha pressão, muitas mulheres acabam deixando o mercado de trabalho no afã de atender às demandas que recaem sobre elas. Refiro-me a gente com alta escolaridade e com todas as chances de prosperar.
Apesar da pressão pela maternidade a que a senhora se refere, os dados demográficos mostram uma queda acentuada nos índices de fecundidade em países europeus, assim como no Brasil…
As estatísticas confirmam o que os demógrafos já previam: são principalmente as mulheres mais escolarizadas e egressas dos mais altos estratos de renda que estão-tendo menos filhos, ou nenhum. Vejo nisso um efeito direto da cobrança pela maternidade perfeita de que tanto falo. Na iminência de ficarem reféns de tantas exigências sociais, muitas simplesmente desistem de se tornar mães.
Essa pressão de que a senhora trata varia de uma cultura para outra?
Existe uma lógica bastante clara. A cobrança por perfeição incide mais sobre a cabeça daquelas mães que encarnam simbolicamente o papel de superpoderosas. Refiro-me, por exemplo, à mama italiana, à kenbo japonesa e à mutter alemã. O resultado se percebe nas estatísticas. Na Alemanha, um terço de todas as mulheres com ensino superior completo opta por não ter filhos. Trata-se de um dado espantoso. É claro que, além de toda a pressão que pesa sobre as alemãs, recai sobre elas a dificuldade de achar uma boa creche e contar com uma estrutura que lhes permita manter um trabalho.
Muitas mulheres acabam cedendo à pressão de se tomar mães, mesmo que esse não seja um desejo delas?
É mais frequente do que se poderia esperar em sociedades ocidentais avançadas. E isso não é bom. A experiência mostra de forma bastante enfática que, em geral, mulheres que nunca desejaram a maternidade, mas que acabam tendo filhos em razão da pressão da família e dos amigos, tornam-se mães impacientes, frustradas e medíocres. É espantoso que em um mundo tão moderno como este em que vivemos não pareça razoável que urna mulher simplesmente não deseje ser mãe! É como se isso significasse uma recusa à própria natureza. Os estereótipos negativos sobre as mulheres que não querem ter filhos são os piores possíveis: egoístas, insatisfeitas, imaturas, incompletas, carreiristas, só para citar alguns. Mesmo que eles não sejam verbalizados, estão sempre presentes. Uma bobagem que tem raízes mais antigas no pensamento ocidental.
Mas, afinal, os hormônios não têm influência direta na ligação afetiva que uma mãe trava com seu filho?
Sabemos que cada mulher apresenta uma sensibilidade diferente à atividade hormonal quando tem seu filho. O que é determinante para todas elas é o caldo cultural do qual emerge a ideia do amor materno, como um sentimento que deve ser livre de imperfeições e ambiguidades. É curioso notar que o conceito de maternidade tem variado na história de acordo com as mudanças socioeconômicas. Nas sociedades mais primitivas, ser mãe significava primeiro, colocar mais gente na tribo para fortalecer numericamente o grupo e enfrentar melhor os inimigos e, segundo, aumentar a capacidade produtiva. Revisito a história para relativizar essa ideia do instinto materno, que tem hoje uma aura de sagrado. Mães são naturalmente imperfeitas, como é inerente à própria espécie humana!
Quando surge o conceito de maternidade tal como conhecemos hoje?Apenas a partir do século XVIII, sob influência direta do filósofo francês Jean-Jacques Rousseau. Foi com a publicação de Émile, em 1762, que Rousseau deu o primeiro e decisivo impulso para a concepção de família fundamentada no amor materno, como é hoje. Naquele tempo, com o apoio principalmente dos médicos, ele conseguiu convencer a sociedade francesa a valorizar mais a função materna, argumentando que isso significava para as mulheres a reconquista do papel superior que lhes foi dado pela natureza.
Naquele tempo, nem mesmo as crianças eram reconhecidas por suas característica particulares, certo?
É verdade. Elas eram vistas apenas com adultos em miniatura, com pouca ou nenhuma importância na família. Entregues às amas para que as alimentassem e criassem, só voltavam ao convívio dos pais por volta dos cinco anos. Durante os séculos seguintes, todos os pensadores que se debruçaram sobre a maternidade e a infância retornaram à filosofia Rousseauniana, divulgando-a e aprofundando-a. É a própria história que nos conduz a uma conclusão óbvia: a de que o amor materno não é instintivo, como tantos apregoam, mas sim uma ideia construída.
As supermães de hoje são o produto mais acabado dessa construção história?
As mães que põem os interesses e as vontades dos filhos sempre acima dos seus são vítimas deste equívoco historicamente determinado. Essas mães acreditam que a dedicação incondicional pode ajudar a produzir uma criança perfeita, resultado dos incentivos constantes. Nada mais típico do grande equívoco atual, baseado numa interpretação exagerada da psicanálise, do que a ideia de que as crianças devem ser poupadas de toda e qualquer frustração. Esse excesso costuma produzir efeitos colaterais desastrosos: tanto para a mãe como para a criança.
Quais efeitos exatamente a senhora se refere?
Não raro, os filhos tomam o controle da situação e se tornam pequenos tiramos em casa: fenômeno que na França chamamos de L’Enfant Roi (algo como “A criança reina”). Por outro lado, causa frustração às mulheres colocarem-se sempre em segundo plano. Não estou dizendo aqui, nem de longe, que existe uma fórmula ideal para a maternidade. Algumas mães podem deixar o emprego em nome dos filhos e ficar contentes com esta opção. Outras não. Chama-me muito a minha atenção ver mulheres com expressões vazias quando cuidam de seus filhos nas praças e jardins. Fico me perguntando: qual é o problema de reconhecer que não querem passar o dia inteiro com os seus filhos? Evidentemente, elas acham que isso significaria amá-los menos.
Mas esse dilema materno não é o mesmo de sempre?
Não. De certo modo, as mulheres que têm filhos atualmente procuram ser a antítese das próprias mães. Pode-se dizer que o modelo das mulheres que lutaram por seus direitos na década de ’70, se por um lado resultou em avanços para elas, por outro se tornou constante fonte de estresse e frustração. A atual geral de mulheres assistiu à própria mãe tentando equilibrar-se em uma rotina extenuante, comprimida entre trabalho e filhos. Com esse exemplo em casa muitas das jovens de hoje enxergam na maternidade em tempo integral uma chance de levar uma vida menos maçante, uma vida mais prazerosa e plena. Talvez, se não fossem tão pressionadas a desempenhar esse papel, sempre em busca da PERFEIÇÃO, elas poderiam ter seus filhos e ainda assim conseguir trabalhar: tudo com muito mais leveza!
Em que medida o papel dos homens está mudando?
Claramente, as últimas décadas não têm sido fáceis para eles. As mulheres conquistaram o mercado de trabalho, se tornaram financeiramente independentes e, como tratores, acumularam responsabilidades dentro e fora de casa. Os avanços foram incríveis. E o que restou para os homens? Muitas cobranças e uma percepção ainda difusa sobre o seu real papel: algo que, em minha opinião, pode se definir com maior clareza nas décadas que virão. Como contribuição dos conceitos de feminstas mais radicais, ainda prevalecem uma visão muito negativa do sexo masculino. São difundidos estereótipos que em nada ajudam a compreender o mundo de hoje. É absurda a ideia ainda tão propagada de que as mulheres são, por definição, vítimas.
Qual a sua visão particular do que afinal, é ser uma boa mãe?
Esse é um assunto em que, definitivamente, não cabe modelos excludentes. É natural que a maternidade varie segundo valores, crenças e cultura familiares de cada mulher. Portanto, o máximo que posso dizer é o que sinaliza a experiência de forma bem clara: o ponto ideal é aquele em que as mulheres mantenham a equidistância entre os próprios desejos e os de seus filhos. Em outras palavras, que alcancem um ponto de equilíbrio em que não fiquem excessivamente próximas a ponto de roubar o espaço necessário ao desenvolvimento das crianças; nem tão distantes que pareçam ausentes. As mães são, afinal, referência afetiva e intelectual imprescindível aos filhos. Infelizmente, esse modelo mais harmonioso e livre de tantas cobranças é bem raro no mundo atual.
Revista Veja – Entrevista com Elisabeth Badinter – Edição 2226
Poucos intelectuais falam sobre os DILEMAS DA MATERNIDADE com a CORAGEM da filósofa francesa Elisabeth Badinter, 67 anos. Professora da École Polytechnique, autora de uma dezena de livros, ela sempre causou polêmicas que extrapolaram a academia. Em 1980, lançou um livro em que questionava a noção de instinto materno. A mais recente controvérsia gira em torno de seu novo trabalho, Le Conflit: la Femme et la Mère (O Conflito: a Mulher e a Mãe), best-seller na França, recém-lançado no Brasil. Badinter ataca um grupo de feministas que ajuda a consolidar no pensamento moderno a ideia de que toda mulher deve ser mãe – e perfeita. Herdeira do grupo de publicidade Publicis e mãe de três filhos, ela concedeu a entrevista de Paris, onde mora com o marido, Robert Badinter, ex-ministro da Justiça da era Mitterrand.
Como a senhora conseguiu despertar a ira de feministas, ecologistas e acadêmicos?
Tento desconstruir um mito que vem se consolidando nas sociedades modernas com a participação de todos esses grupos: o da mãe perfeita. Movidos por ideologias as mais variadas, feministas, ecologistas e os intelectuais que eu combato tratam de sedimentar no caldo cultural do século XXI a ideia de que, uma vez mãe, a mulher deve se enquadrar em um modelo único, obedecendo a dogmas que, de tão atrasados, sepultam os avanços mais básicos trazidos pela industrialização. Estou falando de pessoas que torcem o nariz para as cesarianas e chegam a fazer apologia do parto sem anestesia, sob o argumento de que há beleza no sacrifício feito em nome dos filhos já no primeiro ato. Demonizam o uso da mamadeira e até o da fralda descartável. Para essa gente, as mães nunca devem estar indispostas para suprir as necessidades de sua prole. Essa pressão só causa frustração e culpa nas mulheres.
A senhora está dizendo que as próprias feministas agitam hoje bandeiras que trazem frustração e culpa às mulheres?
Uma parte delas, não há dúvida, está dando marcha à ré em relação a conquistas anteriores. Pois elas estão, no fim das contas, retirando o direito de escolha das mulheres. Olhe um exemplo bem claro do que digo. Em 2009, a então ministra da Justiça francesa, Rachida Dati, voltou à ativa poucos dias depois de dar à luz. Foi o suficiente para que algumas feministas ficassem possessas. “O que essa ministra está fazendo que não ficou em casa amamentando seu bebê?”, elas indagavam. Diziam que os empregadores poderiam agarrar-se àquele caso para se insurgir contra a licença-maternidade e outros direitos adquiridos pelas mulheres que são mães. Em suma, politizaram a discussão sem se preocupar com aquilo que, afinal, é o fundamental: que, entre parâmetros razoáveis, elas possam exercer a maternidade à sua maneira, de acordo com seus valores e convicções. Pois digo mais sobre essas feministas: elas estão contribuindo para que as mulheres voltem para o lar!
Mas não é uma bandeira oposta à que sempre defenderam?
Não é que elas trocaram de bandeira, só que sua mensagem vai em direção contrária ao que apregoam. Essas feministas dizem que as mulheres apresentam certas características, como ternura e compaixão, que as distinguem dos homens de forma decisiva. Para elas, ser mãe seria como uma extensão natural da própria natureza feminina e, por isso, todas deveriam exercer seu lado maternal. É como um ato, uma demarcação de território. Certamente a maioria das mães de hoje não se reconhece nesse discurso, mas ele acaba se juntando ao de outras tantas cabeças pensantes equivocadas que tratam de idealizar a maternidade. Diante de tamanha pressão, muitas mulheres acabam deixando o mercado de trabalho no afã de atender às demandas que recaem sobre elas. Refiro-me a gente com alta escolaridade e com todas as chances de prosperar.
Apesar da pressão pela maternidade a que a senhora se refere, os dados demográficos mostram uma queda acentuada nos índices de fecundidade em países europeus, assim como no Brasil…
As estatísticas confirmam o que os demógrafos já previam: são principalmente as mulheres mais escolarizadas e egressas dos mais altos estratos de renda que estão-tendo menos filhos, ou nenhum. Vejo nisso um efeito direto da cobrança pela maternidade perfeita de que tanto falo. Na iminência de ficarem reféns de tantas exigências sociais, muitas simplesmente desistem de se tornar mães.
Essa pressão de que a senhora trata varia de uma cultura para outra?
Existe uma lógica bastante clara. A cobrança por perfeição incide mais sobre a cabeça daquelas mães que encarnam simbolicamente o papel de superpoderosas. Refiro-me, por exemplo, à mama italiana, à kenbo japonesa e à mutter alemã. O resultado se percebe nas estatísticas. Na Alemanha, um terço de todas as mulheres com ensino superior completo opta por não ter filhos. Trata-se de um dado espantoso. É claro que, além de toda a pressão que pesa sobre as alemãs, recai sobre elas a dificuldade de achar uma boa creche e contar com uma estrutura que lhes permita manter um trabalho.
Muitas mulheres acabam cedendo à pressão de se tomar mães, mesmo que esse não seja um desejo delas?
É mais frequente do que se poderia esperar em sociedades ocidentais avançadas. E isso não é bom. A experiência mostra de forma bastante enfática que, em geral, mulheres que nunca desejaram a maternidade, mas que acabam tendo filhos em razão da pressão da família e dos amigos, tornam-se mães impacientes, frustradas e medíocres. É espantoso que em um mundo tão moderno como este em que vivemos não pareça razoável que urna mulher simplesmente não deseje ser mãe! É como se isso significasse uma recusa à própria natureza. Os estereótipos negativos sobre as mulheres que não querem ter filhos são os piores possíveis: egoístas, insatisfeitas, imaturas, incompletas, carreiristas, só para citar alguns. Mesmo que eles não sejam verbalizados, estão sempre presentes. Uma bobagem que tem raízes mais antigas no pensamento ocidental.
Mas, afinal, os hormônios não têm influência direta na ligação afetiva que uma mãe trava com seu filho?
Sabemos que cada mulher apresenta uma sensibilidade diferente à atividade hormonal quando tem seu filho. O que é determinante para todas elas é o caldo cultural do qual emerge a ideia do amor materno, como um sentimento que deve ser livre de imperfeições e ambiguidades. É curioso notar que o conceito de maternidade tem variado na história de acordo com as mudanças socioeconômicas. Nas sociedades mais primitivas, ser mãe significava primeiro, colocar mais gente na tribo para fortalecer numericamente o grupo e enfrentar melhor os inimigos e, segundo, aumentar a capacidade produtiva. Revisito a história para relativizar essa ideia do instinto materno, que tem hoje uma aura de sagrado. Mães são naturalmente imperfeitas, como é inerente à própria espécie humana!
Quando surge o conceito de maternidade tal como conhecemos hoje?Apenas a partir do século XVIII, sob influência direta do filósofo francês Jean-Jacques Rousseau. Foi com a publicação de Émile, em 1762, que Rousseau deu o primeiro e decisivo impulso para a concepção de família fundamentada no amor materno, como é hoje. Naquele tempo, com o apoio principalmente dos médicos, ele conseguiu convencer a sociedade francesa a valorizar mais a função materna, argumentando que isso significava para as mulheres a reconquista do papel superior que lhes foi dado pela natureza.
Naquele tempo, nem mesmo as crianças eram reconhecidas por suas característica particulares, certo?
É verdade. Elas eram vistas apenas com adultos em miniatura, com pouca ou nenhuma importância na família. Entregues às amas para que as alimentassem e criassem, só voltavam ao convívio dos pais por volta dos cinco anos. Durante os séculos seguintes, todos os pensadores que se debruçaram sobre a maternidade e a infância retornaram à filosofia Rousseauniana, divulgando-a e aprofundando-a. É a própria história que nos conduz a uma conclusão óbvia: a de que o amor materno não é instintivo, como tantos apregoam, mas sim uma ideia construída.
As supermães de hoje são o produto mais acabado dessa construção história?
As mães que põem os interesses e as vontades dos filhos sempre acima dos seus são vítimas deste equívoco historicamente determinado. Essas mães acreditam que a dedicação incondicional pode ajudar a produzir uma criança perfeita, resultado dos incentivos constantes. Nada mais típico do grande equívoco atual, baseado numa interpretação exagerada da psicanálise, do que a ideia de que as crianças devem ser poupadas de toda e qualquer frustração. Esse excesso costuma produzir efeitos colaterais desastrosos: tanto para a mãe como para a criança.
Quais efeitos exatamente a senhora se refere?
Não raro, os filhos tomam o controle da situação e se tornam pequenos tiramos em casa: fenômeno que na França chamamos de L’Enfant Roi (algo como “A criança reina”). Por outro lado, causa frustração às mulheres colocarem-se sempre em segundo plano. Não estou dizendo aqui, nem de longe, que existe uma fórmula ideal para a maternidade. Algumas mães podem deixar o emprego em nome dos filhos e ficar contentes com esta opção. Outras não. Chama-me muito a minha atenção ver mulheres com expressões vazias quando cuidam de seus filhos nas praças e jardins. Fico me perguntando: qual é o problema de reconhecer que não querem passar o dia inteiro com os seus filhos? Evidentemente, elas acham que isso significaria amá-los menos.
Mas esse dilema materno não é o mesmo de sempre?
Não. De certo modo, as mulheres que têm filhos atualmente procuram ser a antítese das próprias mães. Pode-se dizer que o modelo das mulheres que lutaram por seus direitos na década de ’70, se por um lado resultou em avanços para elas, por outro se tornou constante fonte de estresse e frustração. A atual geral de mulheres assistiu à própria mãe tentando equilibrar-se em uma rotina extenuante, comprimida entre trabalho e filhos. Com esse exemplo em casa muitas das jovens de hoje enxergam na maternidade em tempo integral uma chance de levar uma vida menos maçante, uma vida mais prazerosa e plena. Talvez, se não fossem tão pressionadas a desempenhar esse papel, sempre em busca da PERFEIÇÃO, elas poderiam ter seus filhos e ainda assim conseguir trabalhar: tudo com muito mais leveza!
Em que medida o papel dos homens está mudando?
Claramente, as últimas décadas não têm sido fáceis para eles. As mulheres conquistaram o mercado de trabalho, se tornaram financeiramente independentes e, como tratores, acumularam responsabilidades dentro e fora de casa. Os avanços foram incríveis. E o que restou para os homens? Muitas cobranças e uma percepção ainda difusa sobre o seu real papel: algo que, em minha opinião, pode se definir com maior clareza nas décadas que virão. Como contribuição dos conceitos de feminstas mais radicais, ainda prevalecem uma visão muito negativa do sexo masculino. São difundidos estereótipos que em nada ajudam a compreender o mundo de hoje. É absurda a ideia ainda tão propagada de que as mulheres são, por definição, vítimas.
Qual a sua visão particular do que afinal, é ser uma boa mãe?
Esse é um assunto em que, definitivamente, não cabe modelos excludentes. É natural que a maternidade varie segundo valores, crenças e cultura familiares de cada mulher. Portanto, o máximo que posso dizer é o que sinaliza a experiência de forma bem clara: o ponto ideal é aquele em que as mulheres mantenham a equidistância entre os próprios desejos e os de seus filhos. Em outras palavras, que alcancem um ponto de equilíbrio em que não fiquem excessivamente próximas a ponto de roubar o espaço necessário ao desenvolvimento das crianças; nem tão distantes que pareçam ausentes. As mães são, afinal, referência afetiva e intelectual imprescindível aos filhos. Infelizmente, esse modelo mais harmonioso e livre de tantas cobranças é bem raro no mundo atual.
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29/07/2011
Embaixadores da Prevenção
Oi, gente,
Estou participando de um projeto que tem como objetivo realizar prevenção ao uso de álcool, tabaco e drogas entre crianças, já que o primeiro contato com tais substâncias tem acontecido entre 10 e 12 anos!!!
Gravei 2 entrevistas para o programa AÇÃO NACIONAL, apresentado na TV Séc XXI às quintas-feiras 22:30h - o primeiro deles foi ao ar ontem e o segundo será apresentado dia 4/08.
Amanhã, sábado 30/07/2011, participarei de um debate ao vivo na mesma emissora, de 09:30 às 11:30h, no programa ORIENTE-SE, com Ivan Capelato e Ricardo Galhardo. O Programa é interativo e os telespectadores podem enviar perguntas.
Esse projeto é muito especial para mim, estou bastante envolvida com ele e gostaria de compartilhá-lo com vocês, convidá-los a participar e pedir sua ajuda para divulgá-lo.
Muito obrigada!
Débora
Estou participando de um projeto que tem como objetivo realizar prevenção ao uso de álcool, tabaco e drogas entre crianças, já que o primeiro contato com tais substâncias tem acontecido entre 10 e 12 anos!!!
Gravei 2 entrevistas para o programa AÇÃO NACIONAL, apresentado na TV Séc XXI às quintas-feiras 22:30h - o primeiro deles foi ao ar ontem e o segundo será apresentado dia 4/08.
Amanhã, sábado 30/07/2011, participarei de um debate ao vivo na mesma emissora, de 09:30 às 11:30h, no programa ORIENTE-SE, com Ivan Capelato e Ricardo Galhardo. O Programa é interativo e os telespectadores podem enviar perguntas.
Esse projeto é muito especial para mim, estou bastante envolvida com ele e gostaria de compartilhá-lo com vocês, convidá-los a participar e pedir sua ajuda para divulgá-lo.
Muito obrigada!
Débora
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prevenção
23/07/2011
Bons Professores: títulos ou motivação?
Pesquisadores de quatro universidades brasileiras analisaram 165 estudos nacionais e internacionais sobre aprendizado escolar e concluíram que o fator mais importante em sala de aula é a qualidade do professor. Uma das análises revelou que um bom docente aumenta em até 68% a proficiência do aluno. O levantamento faz parte de uma iniciativa do movimento Todos pela Educação e do Instituto Ayrton Senna, cujo objetivo é apontar caminhos para a melhoria do ensino no Brasil.
O tamanho e a composição da turma ocupam o segundo e terceiro lugar, respectivamente, no ranking dos fatores que mais influenciam a capacidade de aprendizado. Classes menores permitem atendimento individualizado e turmas homogêneas – com alunos da mesma idade e desempenho semelhante – facilitam o preparo da aula e a exposição do conteúdo. Em seguida vem o calendário escolar – com fatores como o número de dias letivos e de faltas dos docentes – e a experiência do professor em sala de aula.
Estudos demonstram que um aluno que estuda com os melhores professores da rede em vez de ter aula com os piores docentes aprende cerca de 68% a mais do que o aprendizado médio dos alunos durante o ano letivo.
Critérios frequentemente usados para seleção dos profissionais e definição de salários, como titulação e anos de carreira, não são sinônimos de qualidade. O sucesso do professor pode depender mais de características não observadas nas pesquisas, como liderança, motivação e persistência.
Quanto maior o número de alunos por classe, menor a atenção dada pelo professor a cada um, o que pode comprometer o aprendizado. Menos estudantes é sinônimo de atendimento individualizado.
Estudos indicam que o aprendizado é mais favorável em classes homogêneas, pois o professor pode preparar a aula segundo o nível da turma. O docente também se sente mais motivado e empenha-se mais em ensinar.A diversidade da turma traria por si só ganhos para os alunos em termos de convivência e respeito às diferenças.
Ter aula com um professor inexperiente, comparado a um docente com no mínimo dois anos de experiência, faz os alunos aprenderem 22% a mais no ano letivo. Além disso, é crescente a indicação de que a experiência do professor é mais importante nas comunidades mais vulneráveis.
A ausência do professor pode ter não só um impacto direto no aprendizado dos alunos, com a redução no número de aulas, mas também um efeito indireto sobre sua motivação.
- Foram selecionados 17 pesquisadores da Fundação Getulio Vargas (FGV/SP), Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec/RJ), Universidade de São Paulo (USP) e Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
- Eles analisaram mais de 600 pesquisas nacionais e internacionais sobre educação e selecionaram as 165 mais significativas.
- O principal critério para seleção foi a publicação dos estudos em revistas e periódicos científicos, livros ou a inclusão em dissertações de mestrado e teses de doutorado.
- A partir dos estudos foram criados 25 verbetes que fazem parte do site www.paramelhoraroaprendizado.org.br, mantido pelo movimento Todos pela Educação e pelo Instituto Ayrton Senna.
O levantamento mostra que a seleção de professores não pode ser realizada somente com base em concursos e certificações. Há aspectos que precisam ser considerados (e, em geral, são deixados de lado), como a didática e o nível de aprendizado dos estudantes que precisam ser levados em conta no recrutamento e melhoria da remuneração.
Os pesquisadores afirmam também que, como o desempenho pode variar a cada período, “seria importante que a remuneração desses profissionais levasse em conta não apenas seus atributos e características – tais como ser ou não concursado ou certificado –, mas também o desempenho de seus alunos ao longo do tempo.”
Conselheiro do Todos pela Educação, Mozart Neves Ramos explica que é da qualidade do docente que parte toda a aprendizagem. “O professor é o elemento central, é dele que depende a capacidade não apenas de ensinar, mas de provocar e estimular.”
Outro ponto ressaltado durante o levantamento é a importância do engajamento da comunidade escolar e da família, o que mostra que não são somente fatores objetivos que influenciam este processo. Ramos lembra que, após os resultados do Ideb de 2007, o Unicef fez um levantamento e comprovou que os melhores colégios eram aqueles com alto poder de mobilização.
A infraestrutura e os recursos pedagógicos são fundamentais para o aprendizado, mas o levantamento realizado pelos pesquisadores demonstra que ainda faltam estudos para avaliar os impactos negativos de uma escola sem acesso à rede de esgoto ou quadra poliesportiva, por exemplo.
Consultor da Unesco e professor da Universidade de Brasília (UNB), Célio da Cunha argumenta que a escola precisa de infraestrutura básica para garantir a aprendizagem. “Para incentivar a leitura é preciso uma biblioteca e o estudante precisa também ter acesso a novas tecnologias. Por outro lado, como estudar em uma sala que não tem ventilação adequada?”, questiona.
O levantamento confirmou que questões simples, como dever de casa e atividades extracurriculares, são importantes no aprendizado, embora ainda faltem pesquisas nestas áreas. No caso do dever, por exemplo, a eficiência é ainda maior quando o docente corrige a tarefa.
Pedagoga e professora da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Evelise Portilho afirma que a aprendizagem não ocorre somente no ambiente formal. Por isso, o dever e outras atividades podem ser decisivos. “Isso auxilia o estudante a buscar outras estratégias e caminhos que vão além da sala de aula.”
Apucarana, no Norte do estado, parece ter encontrado o caminho para garantir o aprendizado mínimo de todos os estudantes da rede pública. Em 2009, a nota do Ideb do município alcançou seis, meta estimada pelo governo federal para o Brasil apenas em 2022. Todos os 10.238 alunos ficam em período integral, projeto que começou a ser implantado em 2001. Os gestores investem 32% da arrecadação em educação, sete pontos porcentuais a mais do que estipula a Constituição.
Claudio Silva, responsável pela autarquia de educação de Apucarana, explica que o resultado mais positivo é a equidade da rede. Hoje 60% das escolas estão na média ou acima de seis, 29% estão a meio ponto da meta e apenas 10% estão um ponto atrás. “É o resultado de muito esforço. Para os professores, o maior ganho é a autoestima.”
Os mais de 150 estudos analisados desmitificam algumas ideias de senso comum sobre a figura do professor, entre elas a relação entre titulação acadêmica e desempenho. Um docente formado nas me lhores universidades traz impactos positivos, mas a mesma correla ção não existe com a conclusão ou não de um mestrado, por exemplo.
Pesquisas mostram que, entre estudantes da mesma escola e vindos de ambientes familiares semelhantes, não há diferença de aprendizado quando o professor tem formação superior ou completou uma pós-graduação. Conse lheiro do Todos pela Educação, Mozart Neves Ramos explica que uma das possibilidades é que há um descompasso entre o que é ensinado nas universidades e o que é exigido para os alunos da educação básica, por isso não há um impacto direto.
Outra hipótese é que as pesquisas existentes não conseguem mensurar a motivação dos docentes. Se um determinado professor tem o magistério como primeira opção certamente será melhor que alguém lecionando por simples falta de alternativa profissional, ainda que este tenha titulação acadêmica maior.
Por fim, uma última alternativa é que estabilidade, segurança e me lhor remuneração oferecidas a quem tem maior titulação possa ter impacto negativo sobre o esforço do professor em sala de aula. “De fato, qualquer privilégio definido segundo o nível educacional, em particular a diferença de remuneração, pode também servir de de sestímulo ao esforço dos professores”, dizem os pesquisadores do Todos pela Educação no documento.
O tamanho e a composição da turma ocupam o segundo e terceiro lugar, respectivamente, no ranking dos fatores que mais influenciam a capacidade de aprendizado. Classes menores permitem atendimento individualizado e turmas homogêneas – com alunos da mesma idade e desempenho semelhante – facilitam o preparo da aula e a exposição do conteúdo. Em seguida vem o calendário escolar – com fatores como o número de dias letivos e de faltas dos docentes – e a experiência do professor em sala de aula.
Estudos demonstram que um aluno que estuda com os melhores professores da rede em vez de ter aula com os piores docentes aprende cerca de 68% a mais do que o aprendizado médio dos alunos durante o ano letivo.
Critérios frequentemente usados para seleção dos profissionais e definição de salários, como titulação e anos de carreira, não são sinônimos de qualidade. O sucesso do professor pode depender mais de características não observadas nas pesquisas, como liderança, motivação e persistência.
Quanto maior o número de alunos por classe, menor a atenção dada pelo professor a cada um, o que pode comprometer o aprendizado. Menos estudantes é sinônimo de atendimento individualizado.
Estudos indicam que o aprendizado é mais favorável em classes homogêneas, pois o professor pode preparar a aula segundo o nível da turma. O docente também se sente mais motivado e empenha-se mais em ensinar.A diversidade da turma traria por si só ganhos para os alunos em termos de convivência e respeito às diferenças.
Ter aula com um professor inexperiente, comparado a um docente com no mínimo dois anos de experiência, faz os alunos aprenderem 22% a mais no ano letivo. Além disso, é crescente a indicação de que a experiência do professor é mais importante nas comunidades mais vulneráveis.
A ausência do professor pode ter não só um impacto direto no aprendizado dos alunos, com a redução no número de aulas, mas também um efeito indireto sobre sua motivação.
- Foram selecionados 17 pesquisadores da Fundação Getulio Vargas (FGV/SP), Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec/RJ), Universidade de São Paulo (USP) e Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
- Eles analisaram mais de 600 pesquisas nacionais e internacionais sobre educação e selecionaram as 165 mais significativas.
- O principal critério para seleção foi a publicação dos estudos em revistas e periódicos científicos, livros ou a inclusão em dissertações de mestrado e teses de doutorado.
- A partir dos estudos foram criados 25 verbetes que fazem parte do site www.paramelhoraroaprendizado.org.br, mantido pelo movimento Todos pela Educação e pelo Instituto Ayrton Senna.
O levantamento mostra que a seleção de professores não pode ser realizada somente com base em concursos e certificações. Há aspectos que precisam ser considerados (e, em geral, são deixados de lado), como a didática e o nível de aprendizado dos estudantes que precisam ser levados em conta no recrutamento e melhoria da remuneração.
Os pesquisadores afirmam também que, como o desempenho pode variar a cada período, “seria importante que a remuneração desses profissionais levasse em conta não apenas seus atributos e características – tais como ser ou não concursado ou certificado –, mas também o desempenho de seus alunos ao longo do tempo.”
Conselheiro do Todos pela Educação, Mozart Neves Ramos explica que é da qualidade do docente que parte toda a aprendizagem. “O professor é o elemento central, é dele que depende a capacidade não apenas de ensinar, mas de provocar e estimular.”
Outro ponto ressaltado durante o levantamento é a importância do engajamento da comunidade escolar e da família, o que mostra que não são somente fatores objetivos que influenciam este processo. Ramos lembra que, após os resultados do Ideb de 2007, o Unicef fez um levantamento e comprovou que os melhores colégios eram aqueles com alto poder de mobilização.
A infraestrutura e os recursos pedagógicos são fundamentais para o aprendizado, mas o levantamento realizado pelos pesquisadores demonstra que ainda faltam estudos para avaliar os impactos negativos de uma escola sem acesso à rede de esgoto ou quadra poliesportiva, por exemplo.
Consultor da Unesco e professor da Universidade de Brasília (UNB), Célio da Cunha argumenta que a escola precisa de infraestrutura básica para garantir a aprendizagem. “Para incentivar a leitura é preciso uma biblioteca e o estudante precisa também ter acesso a novas tecnologias. Por outro lado, como estudar em uma sala que não tem ventilação adequada?”, questiona.
O levantamento confirmou que questões simples, como dever de casa e atividades extracurriculares, são importantes no aprendizado, embora ainda faltem pesquisas nestas áreas. No caso do dever, por exemplo, a eficiência é ainda maior quando o docente corrige a tarefa.
Pedagoga e professora da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Evelise Portilho afirma que a aprendizagem não ocorre somente no ambiente formal. Por isso, o dever e outras atividades podem ser decisivos. “Isso auxilia o estudante a buscar outras estratégias e caminhos que vão além da sala de aula.”
Apucarana, no Norte do estado, parece ter encontrado o caminho para garantir o aprendizado mínimo de todos os estudantes da rede pública. Em 2009, a nota do Ideb do município alcançou seis, meta estimada pelo governo federal para o Brasil apenas em 2022. Todos os 10.238 alunos ficam em período integral, projeto que começou a ser implantado em 2001. Os gestores investem 32% da arrecadação em educação, sete pontos porcentuais a mais do que estipula a Constituição.
Claudio Silva, responsável pela autarquia de educação de Apucarana, explica que o resultado mais positivo é a equidade da rede. Hoje 60% das escolas estão na média ou acima de seis, 29% estão a meio ponto da meta e apenas 10% estão um ponto atrás. “É o resultado de muito esforço. Para os professores, o maior ganho é a autoestima.”
Os mais de 150 estudos analisados desmitificam algumas ideias de senso comum sobre a figura do professor, entre elas a relação entre titulação acadêmica e desempenho. Um docente formado nas me lhores universidades traz impactos positivos, mas a mesma correla ção não existe com a conclusão ou não de um mestrado, por exemplo.
Pesquisas mostram que, entre estudantes da mesma escola e vindos de ambientes familiares semelhantes, não há diferença de aprendizado quando o professor tem formação superior ou completou uma pós-graduação. Conse lheiro do Todos pela Educação, Mozart Neves Ramos explica que uma das possibilidades é que há um descompasso entre o que é ensinado nas universidades e o que é exigido para os alunos da educação básica, por isso não há um impacto direto.
Outra hipótese é que as pesquisas existentes não conseguem mensurar a motivação dos docentes. Se um determinado professor tem o magistério como primeira opção certamente será melhor que alguém lecionando por simples falta de alternativa profissional, ainda que este tenha titulação acadêmica maior.
Por fim, uma última alternativa é que estabilidade, segurança e me lhor remuneração oferecidas a quem tem maior titulação possa ter impacto negativo sobre o esforço do professor em sala de aula. “De fato, qualquer privilégio definido segundo o nível educacional, em particular a diferença de remuneração, pode também servir de de sestímulo ao esforço dos professores”, dizem os pesquisadores do Todos pela Educação no documento.
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